quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Sonhos roubados

Não! E mais uma noite se esvai, escorrendo pelas entranhas da insonia. "Maldito pesadelo"... O chão ainda está frio e a sede mais uma vez perde para a preguiça. "Certamente não vale a empreitada de caminhar até a cozinha... Mas era tanto sangue, tanto horror... Argh!" e num pulo, estava com o copo d'água na mão e já de volta ao quarto.

A janela se abre, o vento gela mais ainda o seu peito sem calor. As luzes no morro formavam uma árvore de natal precária, mas querida. Parecida com a sua primeira árvore de natal, feita de papel e enfeites de plástico. Simples, bonita e querida.

Já não se lembrava quanto tempo nenhum calor habitara seu peito. Antes vivia apaixonada por tudo. Um olhar bastava. Quantos amores perdeu atravessando a rua... Mais do que saindo na estação certa.
"Acontece... Outro logo surgirá", mas não vinha. Não vinha o amor, a paixão não fixava bem. Tão ruim quanto perfumes baratos: frascos lindos, notas duvidosas e nenhum fixador. Nem um.

Com o tempo, já se acreditava na extinção de fixadores. Ouviu-se falar da extinção das notas de corpo, mas era besteira. Só a percepção havia perdido sua sensibilidade, acompanhando o estado bitolado do olhar. Há muito as luzes do morro perderam o encanto e as entranhas do piso de tábua corrida ficaram muito mais interessantes ou, no mínimo, demonstraram-se com mais detalhes, pois consumia-se muito mais tempo observando as tábuas do que com as luzes que só apareciam ao cair do dia.

Eles deram as mãos e subiram lentamente uma grande ladeira. Todos juntos: o copo d´água, o vento gelado, as luzes do morro, os amores das ruas, os perfumes baratos e os pisos de madeira. Todos. E ainda juntos, do alto, observaram tudo o que o Sol abraçava todos os dias. A água do copo se foi e, sem o peso necessário, o vento gelado o levou embora assim que o Sol se foi. As luzes do morro que deveriam tomar seu lugar de direito, neste dia, racionaram e o morro ficou no escuro que, por sua vez, também expulsou os perfumes baratos e deu lugar ao medo. Ficaram então as tábuas, cada vez mais nítidas.

Mas quando a noite acabou, ainda sem o vento, sem a água e sem perfume, algumas luzes voltaram e chamavam a atenção mesmo que de manhã. Dessa vez, quando o vento voltou, o frio não veio junto e o coração de aqueceu. Na verdade, ele se aquecera com as luzes do morro e o vento gelado em contato, cedeu ao calor. Calor esse que condensou a água e a trouxe de volta. E com tanto aconchego, volta também o sono, que mesmo com as marcas do último pesadelo, voltou mais forte. Tão mais forte que não houve jeito: "preciso deitar".

O chão confortável fez a cama parecer gelada dessa vez, mas o sono aumentava. Aos poucos às luzes do morro se borraram até o escuro chegar e trazer consigo os sonhos roubados por uma insônia que prometeu voltar logo logo. "Até breve!".