"Daí, então, eu me dobrei, pus-me no bolso e continuei. Ah, no bolso da camisa, é claro, é mais difícil de perder... Não que eu já não estivesse perdido, mas é sempre bom saber que se está no peito. Se estou perdido? Sim, é claro! Sempre estou... [risos] Pois é, estranho né? Logo eu que sempre mostrei o caminho, logo eu que sempre desenhei o mapa, logo eu que me orientava só pelas estrelas, logo eu...
"Aqui dentro é quente", pensei. Nunca havia estado tão perto do peito. Bem, alguns já haviam descrito como era a sensação, mas sempre duvidei. Ora, como pode ser quente e aconchegante? Se calor fosse confortável ninguém ligava ar-condicionado... Mas era. E como era! Falando assim, até é possível sentir saudade. "Não tenho tempo para isso", pensei e continuei a caminhar.
A noite chegava e o crepúsculo nunca fora tão charmoso. Parei de novo. Que se dane o jeans de marca, eu precisava sentar e aquela pedra nunca fora tão confortável! Fiquei ali, estagnado, perdido ainda, tentando me encontrar e no breve momento que me encontrei no deleite do escurecer do céu, lá estava eu, mais uma vez, perdido, sem saber para onde caminhar...
Olhei para o chão, lá estava a flor que tanto admirava... Esbocei um choro (forçado, admito), mas sincero, numa vã tentativa de regá-la. Vã, eu disse e de fato foi. Com o sentimento amuado, a colhi novamente (como sempre fazia) e a pus no bolso, junto a mim. Embora esmagada, suja de terra e um tanto machucada, ainda pude ver sua seiva (ainda havia um tanto da que fabricava) e, vendo que havia me esquecido de me preocupar com seu caule, o substitui tentando alimentá-la do que ela mesmo produzia.
A aurora ameaçava chegar e consigo, meu sorriso trazia. Na medida que sua cor retornava, aos poucos (lenta e timidamente), o dever cumprido era a sensação que eu tinha e o sorriso se tornava cada vez mais LSD (sim, não tinha descrição melhor e eu sei que você entendeu).
Vendo sua viçosidade aflorando, decidi devolve-la à terra. Antes mesmo que acordasse, já implantara novas raízes e, quando menos esperara, já se encontrava na terra de novo. Ali, sozinha, linda, viçosa e com o doce perfume hipnotizante de sempre. Eu, continuei andando. Você, foi ficando cada vez menor. Eu, ainda olhando para trás, tropecei e cai (assim a vida me forçou a olhar para frente). Levantei rápido, ainda atordoado e você já não estava mais lá...
Continuei andando, até minha exaustão. Dias se passaram e, embora ainda no mesmo caminho, não fazia sombra de ideia para onde estaria indo. Lembrei-me então daquele crepúsculo, daquele dia que cheguei tão perto de me encontrar e, quando faltava um triz, eu encontrei você. Pensando, ainda sentado (a força do hábito não me permitia admirar o céu de pé), descobri que foi a única vez que não pensei mais no caminho e nem na direção. Entendi assim que, talvez, fosse você meu caminho e eu, tolo, te deixei por lá, segui outro rumo: desconhecido, não querido, nem um pouco amigo. Senti sua falta, meu bolso estava vazio (porque nem eu mesmo estava mais lá), o que me fez olhar para trás a sua procura.
Não te achei. Só o que vi foi uma linda árvore (próxima de onde te deixei, segundo meus cálculos), cheia de frutos e com a mesma viçosidade. Não sei se as folhas eram tão bonitas, mas seu perfume, esse sim, o vento fez questão de trazer o doce cheiro hipnotizante. Entrei em transe. Pus-me a caminhar. Ainda não sei para onde, ainda perdido, mas caminhando. Ainda não sei onde quero chegar, mas sei que é esse cheiro o melhor para me guiar... Talvez eu te encontre, talvez eu me ache, talvez só o que eu queira seja ser suas raízes e dormir sob suas folhas esperando a próxima aurora chegar."