Dos clichês que a gente cresce ouvindo, um dos poucos verdadeiros é que a infância é sim a fase mais fácil da vida. Não pela "ausência" de problemas, compromissos ou responsabilidades mas pela sua astúcia e simplicidade. Quando criança, os estresses maiores se resumem a alguém que comeu seu último doce ou quebrou seu brinquedo favorito. É tudo mais claro, mais óbvio e a escuridão, por mais que seja temida, não existe.
Procurei, esses dias, pela coragem que todos tem quando criança. Parece areia que se esvai com o tempo. Responder perguntas simples parecia tão fácil e os fantasmas possíveis pareciam ser pequeninos diante da alegria proporcionada pela realização de um sonho.Ser bombeiro, policial, bailaria, jogador de futebol, veterinário, astronauta era tudo que podíamos querer. Salário, carga horária, risco de vida e afins não importavam, o sonho ainda era maior.
Me perguntei ainda para onde iria tanta ousadia, tanta bravura. Quando pequenos, enfrentar dragões, monstros e seres maléficos era divertido e atualmente, por vezes, somos incapazes de dizer poucas verdades. Nos omitimos na sombra dos valores éticos, justificando que ''as coisas não são bem assim'', ''nem tudo é como se quer'' e outras mais desculpas.
Sonhar quando adulto, virou artigo de luxo. Viver parece não ser mais essencial. Há muitos corpos perambulando por ai sem alma. Um homem sem sonho não tem porque estar aqui. É como um arquiteto que não imagina uma nova casa, um professor que não quer formar um aluno ou um compositor que não gosta de música. Quando olhamos o ''mundo adulto'' de baixo, ele parecia ser tão legal...
Não que os sonhos tenham sido extintos, mas são poucos os que permitem seu desenvolvimento. Quase ninguem acredita mais no potencial de um ideal, nem mesmo que o imaginou. Basta um pensar que vai viver de arte, pintar quadros e ser feliz, para que outro afirme: ''vai morrer de fome''. O mais estranho, e que no capitalismo atual, baseado no crédio e no dinheiro virtual tem uma sociedade ainda presa a notas.
Somos muitos com comida na mesa, carros grandes na garagem, muitos remédios em casa e algumas doenças psicosomáticas.
A solução do mundo não é parar tudo e deixar ao Deus dará tudo conquistado. Responsabilidades são vitais e, de fato, as coisas não são como queremos. Mas podem ser. Basta que, para isso, seja permitido que nosso corpo cresça, mas que o espirito jamais deixe de ser criança.
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