Sinto-me um pássaro. Uma águia, mais precisamente. Uma águia a qual acaba de sair de um ovo escuro: pequena, com medo (mesmo sabendo que estou no topo da cadeia alimentar), sinto-me tão vunerável quando uma larva. Mas uma hora as penas nascem, o bico e as garras crescem... Chegou a defesa! Só que o mundo lá fora parece tão cruel que me sinto cada vez mais incapaz de voar.
O aconchego do ninho e a segurança do meu recanto não me parecem situações próprias para o abandono, pelo contrário. As nuvens nunca estiveram tão negras, os raios tão estrondosos, o frio e a solidão de um voo sim, são repulsas às novas tentativas.
Eu não queria nascer e mesmo assim quebrei a casca do frágil ovo. Agora é preciso sair. Três, dois, um: estou voando! É tudo tão lindo, tão pequeno! Sinto-me grande de novo! Estou forte para cortar qualquer vento e carregar a presa que eu quiser! Chegou a nuvem. Chegou a chuva. Chegou o tempo.
As penas, molhadas, estão tão pesadas... As asas doem! Voar já não é mais tão prezeroso, é hora de me recolher. Não sou mais a mesmo, preciso mudar! Preciso crescer. Volto ao ninho, agora frio, sombrio, molhado. Acredite, arrancar todas as penas e depois as garras não sangra mais do que um coração partido. Esmacelar o bico, tão duro, não dói tanto quanto a frustação. Nunca ninguém disse que seria fácil. Sempre soube.
E após longo e tenebroso inverno, o tempo, então, traz de volta as defesas. Sinto-me grande outra vez. O que não regenera são os sonhos deixados para trás. Por fim, tento me enganar de novo e acabo por me fazer de abutre ao viver me alimentando do que já morreu. Tudo isso, na mera tentativa de resgatar o pouco de esperança que resta.
É inacreditável o estrago que uma ave ratita pode fazer. Não importa se você é águia ou faisão. Agora as palavras de ordem são: frieza, calma e determinação. Agora a vida começa de verdade.
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