Não é que eu queira desmoronar outros castelos de areia ou reconstruir o meu que o mar levou tão gentilmente. Nem é porque minha torre desmoronou no último punhado de areia molhada (sim, molhada. Apenas seca e eu não faria nem o portão de entrada)... Sinceramente? Eu nunca quis um castelo. De verdade. Mesmo, mesmo! É que tantas crianças o faziam tão alegremente que eu queria, não o castelo, mas a alegria de fazê-lo.
Sempre me perguntei o porque de estar fazendo um castelo e não um jacaré ou qualquer outra coisa que me fizesse feliz na mesma proporção. O problema nem era a criatividade, a dificuldade de responder "o que fazer". Acho que, na verdade, o problema era ter tanto trabalho para fazer algo diferente e não me fazer tão feliz quanto acreditava que o castelo fazia as crianças que brincavam na praia.
Depois que construí meu primeiro jacaré de areia, vi que fazer castelos era algo bobo. Quer dizer, se você realmente queria um castelo, era algo lindo, talvez a melhor sensação do mundo inteiro fosse vê-lo pronto e se dizer rei dele, mas se você era mais uma criança que faz castelos porque "é o que se faz na areia, afinal", eu acho bobo sim.
Hoje meu último castelo se desfez. Eu sequer me lembrava mais dele, mas vê-lo desmoronado por um qualquer que por ali passara foi estranho. Pensei em sentir o pesar do adeus que dei a esse castelo, mas não achei digno perto do pesar que senti por aquele transeunte que certamente era um ser de areia seca e nada mais. Seres de areia seca não se apegam, não se tornam parte e ficam muito pouco tempo nos sonhos independente de sua forma: castelos, jacarés, reis e princesas, nada consegue fazer os areias secas ficarem muito tempo perto e tão pouco convencê-los de que fazer parte de um sonho é a nova melhor sensação do mundo (melhor do que ver seu castelo pronto) e que nem toda melhor sensação do mundo dura pra sempre. Na verdade, acho que dura sim. Dura um pra sempre diferente, um pra sempre que existe dia sim dia não. Um pra sempre que vai da próxima lambida do mar até sua próxima maré.
Durando muito ou pouco, mesmo quando for muitos segundos ou poucos anos, eu queria que todo castelo durasse um tempo bom o bastante pra fazer lembranças boas, bom o bastante pra ser um bom castelo que tenha um tempo bom o bastante para abrigar todos os jacarés, reis, princesas e areias secas, mas que também tenha um tempo bom para conseguir crianças boas que os reguem com pequenos punhados de água salgada e risos frouxos de um dia de Sol.

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