segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Criptex

http://sabinerich.deviantart.com/art/Moleskine-sketch-2-350702193
           E foi aí que eu me perdi. Papel e caneta sempre foram sinônimo de dor e como boa ex-hipocondríaca, decidi abandoná-los a medida que me forcei a experimentar tratamentos alternativos. Ainda não sei ao certo se foram as tendinites ou os níveis maiores de endorfina, mas o fato era que eu precisava experimentar coisas novas e naquele momento, era preciso aposentar a pena, o teclado e qualquer outra coisa que me fizesse dizer mais do que eu mesma sabia.
            Como todo amor antigo, doeu muito no começo. Quanto mais eu queria melhorar, mais dependente eu ficava. Dessa vez, "engolir o choro, 3x ao dia" era o que eu acreditava precisar, mas, para quem tem refluxo, nada fica entalado por muito tempo e era exatamente aí, que minha inexperiência e juventude berravam.
            Ora, pensava eu, contar tudo para um papel é não contar para ninguém. Escrever com o único objetivo de ilustrar meus cadernos (comprados compulsivamente, claro), não era, nem deveria ser, considerado desabafo. As estantes não parecem tão sábias quanto nas fotos das bibliotecas e nem mesmo eu era a mesma pessoa do eu lírico. Aliás, brigávamos o tempo todo.
            Era minha história, minha dor, minha alegria. Problema era dele se ele queria reescrever o final! Que se dane seus contos de fada e suas crônicas mal escritas. "Desculpa" - foi o que pensei - "mas minha história é rica demais pra caber em poucos versos" - dei de ombros e saí andando.
            Andei tanto que cheguei em outro estado. Minha narrativa se encontrava em pleno desenvolvimento e complicações pareciam brotar do chão (certeza de que algumas vieram do submundo
). Foi então, que sem saber para onde ir (diante da máxima de que "se correr o bicho pega e se ficar o bicho come"), tentei me lembrar de onde vim.
            Recolhi meus cadernos, estudei meus mapas e me encontrei. Ali, quietinha, na página 2.Uma lágrima escorreu e um sorriso ou dois escaparam. Ri de mim e do meu desespero. Andei tanto, tanto, tanto, que dei a volta ao mundo e, redondo como é, trouxe-me ao mesmo lugar. Eu, como todo viciado, tive que ir longe e ir muito à frente de mim para entender que fui gênio. Entender que estava tão a frente de meu próprio tempo que nem eu me entendia. Acreditar que versos não são e nunca serão desabafos e entender de uma vez por todas que quando a caneta quiser falar, é preciso ser humilde e deixá-la livre, pois tudo o que ela faz e guardar um pouco de si para quando você for outro.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

ESCOLHA

Escolha.
Ex, colha.
Inaceitável
Abraçar só o que puder.
Inaceitável
Abraçar só o que semeado estiver.
Impossível
Esquecer o frutificável
Impossível aceitar o inaceitável.

domingo, 18 de maio de 2014

Gambiarra

Créditos: VozModels
E se o dia terminasse mais tarde?
E se a vida durasse um pouco mais?
E se, por um segundo, isso que agora arde,
Ardesse ainda mais?

E se eu não me perguntasse?
E se o caminho, por si só, mudasse?
E se as tantas estrelas mudassem sua posição,
isso comprometeria sua orientação?

E se tudo não dependesse de um só?
E se tudo que resta é apenas nó?
E se, o que deveria ser, não fosse,
faria sentido, então, o que trouxe?

E se tudo se resolvesse com rima?
E se a vida fosse uma unidade trina:
Ler, entender e mudar
Seriam, agora, o bastante para melhorar?

E se no final aparecer solução,
Entenda e mude o já feito até então
E se leia
E se admire
E se vire.

domingo, 9 de março de 2014

E agora? José?

E agora, José?

Você que já esteve no fim da festa,
É só você a solução que me resta!
Como faço para me esconder?
Como devo encarar?
Como volto a conviver?

E agora, José?

Créditos: Romalro Anete
Você que falara com o Benedito,
Com o Raimundo e com o João...
É só você em quem acredito
Haver fagulha de solução...

E agora, José?

O poema acabou,
A angustia passou
E o peito ainda não desabafou...
Embora tenha passado o horror,
Não se sabe ainda para onde levar
Tanta mágoa, medo e dor.

E agora, José?

Para você que é mera rima,
Que não é nem nunca foi solução,
É pra ti que entrego a sina
De tudo que se feriu até então.

Mundo, tão vasto é o mundo...
E se eu chamasse o Raimundo?
Ainda seria apenas rima,
Não seria uma solução..

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Oráculo

E se você negasse sua felicidade
E Se negasse a toda sensação?
E se você negasse que nega,
Faria sentido, então?

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Sonho

Quando eu acordar,
Quero, comigo, o Sol levar,
Quero vestir meu melhor sorriso
E seus brilhos espalhar...

Quando eu acordar,
Não saberei o que é ser triste
E mesmo não acreditando,
Peço então, para que acredite.

Quando eu acordar,
Talvez de tudo isso me esqueça,
Mas hoje,
deixe como está...
Deixe para acontecer só quando eu acordar.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Soneto Toscana

Não que todo sonho não valha a pena,
Nem que toda lágrima seja boa,
Mas quando a alma não é pequena,
Nenhum pranto é pranto a toa...

Não que todo sorriso seja feliz,
Nem que toda solidão seja amarga,
Mas quando a alma é diretriz,
Nenhum pensamento a retarda.

E dos pulsos, houve o fim.
Sem mais impulsos,
Simples assim.

O sentimento aos poucos vira pó
E o pouco que restará
Não será o pior.