terça-feira, 1 de setembro de 2015

No que você está pensando?




Estou pensando nesse dia que é terça e chove.

 Pensei que a semana mal começara e eu já estava com dor de cabeça.
Pensei que não era nem quarta e eu já sentia o peso da quinta.
Pensei que a chuva estava fria e que terça não é dia de chuva.

Pensei se a chuva pensou na terça antes de vir.
 Não,  não é mesmo.
Chuva é feita para domingos com filme, coberta e cafuné, não para uma terça.

Pensei depois que chuva não tem dia.

 Pensei que pensava demais e pensei em não mais pensar.

E depois de pensar em nada mais,
Pensei apenas no barulho de chuva que regava o jardim e trazia um cheiro bom de terra molhada.

Pensei na minha cidade, na minha família, na minha infância e nas chuvas que vi.

Pensei nas corridas de gota no vidro do carro, nos banhos de mar com outras chuvas e nos banhos de chuva que ainda viria a ganhar.

Pensei de novo que estava pensando demais e por fim, pensei que quem pensa demais fica só pensando e nada faz.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Seres de Areia Seca


          Não é que eu queira desmoronar outros castelos de areia ou reconstruir o meu que o mar levou tão gentilmente. Nem é porque minha torre desmoronou no último punhado de areia molhada (sim, molhada. Apenas seca e eu não faria nem o portão de entrada)... Sinceramente? Eu nunca quis um castelo. De verdade. Mesmo, mesmo! É que tantas crianças o faziam tão alegremente que eu queria, não o castelo, mas a alegria de fazê-lo.

           Sempre me perguntei o porque de estar fazendo um castelo e não um jacaré ou qualquer outra coisa que me fizesse feliz na mesma proporção. O problema nem era a criatividade, a dificuldade de responder "o que fazer". Acho que, na verdade, o problema era ter tanto trabalho para fazer algo diferente e não me fazer tão feliz quanto acreditava que o castelo fazia as crianças que brincavam na praia.
         
           Depois que construí meu primeiro jacaré de areia, vi que fazer castelos era algo bobo. Quer dizer, se você realmente queria um castelo, era algo lindo, talvez a melhor sensação do mundo inteiro fosse vê-lo pronto e se dizer rei dele, mas se você era mais uma criança que faz castelos porque "é o que se faz na areia, afinal", eu acho bobo sim.

        Hoje meu último castelo se desfez. Eu sequer me lembrava mais dele, mas vê-lo desmoronado por um qualquer que por ali passara foi estranho. Pensei em sentir o pesar do adeus que dei a esse castelo, mas não achei digno perto do pesar que senti por aquele transeunte que certamente era um ser de areia seca e nada mais. Seres de areia seca não se apegam, não se tornam parte e ficam muito pouco tempo nos sonhos independente de sua forma: castelos, jacarés, reis e princesas, nada consegue fazer os areias secas ficarem muito tempo perto e tão pouco convencê-los de que fazer parte de um sonho é a nova melhor sensação do mundo (melhor do que ver seu castelo pronto) e que nem toda melhor sensação do mundo dura pra sempre. Na verdade, acho que dura sim. Dura um pra sempre diferente, um pra sempre que existe dia sim dia não. Um pra sempre que vai da próxima lambida do mar até sua próxima maré.

       Durando muito ou pouco, mesmo quando for muitos segundos ou poucos anos, eu queria que todo castelo durasse um tempo bom o bastante pra fazer lembranças boas, bom o bastante pra ser um bom castelo que tenha um tempo bom o bastante para abrigar todos os jacarés, reis, princesas e areias secas, mas que também tenha um tempo bom para conseguir crianças boas que os reguem com pequenos punhados de água salgada e risos frouxos de um dia de Sol.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

A felicidade da gente

Créditos: Diário Liberdade
É que depois de tanto tempo, a gente se encontra.
A gente se reentende e eu nem sei  se existe essa palavra,
Mas eu sei que a gente não acaba e que o sonho não termina quando a estrada some.

É que depois que a estrada some, a gente descobre o horizonte.
E a gente aprende de novo que a estrada nunca sumiu.
Aliás, nem mesmo a gente.

É que depois que a gente se encontra,
a gente percebe que não houve reencontro.
Não teve distância, não teve saudade.
Só teve a gente de costas um pro outro achando que era outra realidade.

É que quando a gente não vê, talvez a gente não se sente.
E toda essa gente que não sente, confunde a gente e desmente o que  se entende
Que, até então, era tudo o que eu sabia da gente.

É que quando a gente não sabe da gente,
Toda aquela outra gente, que também não sabe sobre gente,
Acha que separou a gente, e com isso, fica contente.

É que essa felicidade, desse tipo de gente,
Já não contagia mais a gente.
E depois de tanto tempo, a gente se reencontra
E reentende que felicidade pra gente, é a felicidade de toda a gente.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Criptex

http://sabinerich.deviantart.com/art/Moleskine-sketch-2-350702193
           E foi aí que eu me perdi. Papel e caneta sempre foram sinônimo de dor e como boa ex-hipocondríaca, decidi abandoná-los a medida que me forcei a experimentar tratamentos alternativos. Ainda não sei ao certo se foram as tendinites ou os níveis maiores de endorfina, mas o fato era que eu precisava experimentar coisas novas e naquele momento, era preciso aposentar a pena, o teclado e qualquer outra coisa que me fizesse dizer mais do que eu mesma sabia.
            Como todo amor antigo, doeu muito no começo. Quanto mais eu queria melhorar, mais dependente eu ficava. Dessa vez, "engolir o choro, 3x ao dia" era o que eu acreditava precisar, mas, para quem tem refluxo, nada fica entalado por muito tempo e era exatamente aí, que minha inexperiência e juventude berravam.
            Ora, pensava eu, contar tudo para um papel é não contar para ninguém. Escrever com o único objetivo de ilustrar meus cadernos (comprados compulsivamente, claro), não era, nem deveria ser, considerado desabafo. As estantes não parecem tão sábias quanto nas fotos das bibliotecas e nem mesmo eu era a mesma pessoa do eu lírico. Aliás, brigávamos o tempo todo.
            Era minha história, minha dor, minha alegria. Problema era dele se ele queria reescrever o final! Que se dane seus contos de fada e suas crônicas mal escritas. "Desculpa" - foi o que pensei - "mas minha história é rica demais pra caber em poucos versos" - dei de ombros e saí andando.
            Andei tanto que cheguei em outro estado. Minha narrativa se encontrava em pleno desenvolvimento e complicações pareciam brotar do chão (certeza de que algumas vieram do submundo
). Foi então, que sem saber para onde ir (diante da máxima de que "se correr o bicho pega e se ficar o bicho come"), tentei me lembrar de onde vim.
            Recolhi meus cadernos, estudei meus mapas e me encontrei. Ali, quietinha, na página 2.Uma lágrima escorreu e um sorriso ou dois escaparam. Ri de mim e do meu desespero. Andei tanto, tanto, tanto, que dei a volta ao mundo e, redondo como é, trouxe-me ao mesmo lugar. Eu, como todo viciado, tive que ir longe e ir muito à frente de mim para entender que fui gênio. Entender que estava tão a frente de meu próprio tempo que nem eu me entendia. Acreditar que versos não são e nunca serão desabafos e entender de uma vez por todas que quando a caneta quiser falar, é preciso ser humilde e deixá-la livre, pois tudo o que ela faz e guardar um pouco de si para quando você for outro.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

ESCOLHA

Escolha.
Ex, colha.
Inaceitável
Abraçar só o que puder.
Inaceitável
Abraçar só o que semeado estiver.
Impossível
Esquecer o frutificável
Impossível aceitar o inaceitável.

domingo, 18 de maio de 2014

Gambiarra

Créditos: VozModels
E se o dia terminasse mais tarde?
E se a vida durasse um pouco mais?
E se, por um segundo, isso que agora arde,
Ardesse ainda mais?

E se eu não me perguntasse?
E se o caminho, por si só, mudasse?
E se as tantas estrelas mudassem sua posição,
isso comprometeria sua orientação?

E se tudo não dependesse de um só?
E se tudo que resta é apenas nó?
E se, o que deveria ser, não fosse,
faria sentido, então, o que trouxe?

E se tudo se resolvesse com rima?
E se a vida fosse uma unidade trina:
Ler, entender e mudar
Seriam, agora, o bastante para melhorar?

E se no final aparecer solução,
Entenda e mude o já feito até então
E se leia
E se admire
E se vire.

domingo, 9 de março de 2014

E agora? José?

E agora, José?

Você que já esteve no fim da festa,
É só você a solução que me resta!
Como faço para me esconder?
Como devo encarar?
Como volto a conviver?

E agora, José?

Créditos: Romalro Anete
Você que falara com o Benedito,
Com o Raimundo e com o João...
É só você em quem acredito
Haver fagulha de solução...

E agora, José?

O poema acabou,
A angustia passou
E o peito ainda não desabafou...
Embora tenha passado o horror,
Não se sabe ainda para onde levar
Tanta mágoa, medo e dor.

E agora, José?

Para você que é mera rima,
Que não é nem nunca foi solução,
É pra ti que entrego a sina
De tudo que se feriu até então.

Mundo, tão vasto é o mundo...
E se eu chamasse o Raimundo?
Ainda seria apenas rima,
Não seria uma solução..