Não! E mais uma noite se esvai, escorrendo pelas entranhas da insonia. "Maldito pesadelo"... O chão ainda está frio e a sede mais uma vez perde para a preguiça. "Certamente não vale a empreitada de caminhar até a cozinha... Mas era tanto sangue, tanto horror... Argh!" e num pulo, estava com o copo d'água na mão e já de volta ao quarto.
A janela se abre, o vento gela mais ainda o seu peito sem calor. As luzes no morro formavam uma árvore de natal precária, mas querida. Parecida com a sua primeira árvore de natal, feita de papel e enfeites de plástico. Simples, bonita e querida.
Já não se lembrava quanto tempo nenhum calor habitara seu peito. Antes vivia apaixonada por tudo. Um olhar bastava. Quantos amores perdeu atravessando a rua... Mais do que saindo na estação certa.
"Acontece... Outro logo surgirá", mas não vinha. Não vinha o amor, a paixão não fixava bem. Tão ruim quanto perfumes baratos: frascos lindos, notas duvidosas e nenhum fixador. Nem um.
Com o tempo, já se acreditava na extinção de fixadores. Ouviu-se falar da extinção das notas de corpo, mas era besteira. Só a percepção havia perdido sua sensibilidade, acompanhando o estado bitolado do olhar. Há muito as luzes do morro perderam o encanto e as entranhas do piso de tábua corrida ficaram muito mais interessantes ou, no mínimo, demonstraram-se com mais detalhes, pois consumia-se muito mais tempo observando as tábuas do que com as luzes que só apareciam ao cair do dia.
Eles deram as mãos e subiram lentamente uma grande ladeira. Todos juntos: o copo d´água, o vento gelado, as luzes do morro, os amores das ruas, os perfumes baratos e os pisos de madeira. Todos. E ainda juntos, do alto, observaram tudo o que o Sol abraçava todos os dias. A água do copo se foi e, sem o peso necessário, o vento gelado o levou embora assim que o Sol se foi. As luzes do morro que deveriam tomar seu lugar de direito, neste dia, racionaram e o morro ficou no escuro que, por sua vez, também expulsou os perfumes baratos e deu lugar ao medo. Ficaram então as tábuas, cada vez mais nítidas.
Mas quando a noite acabou, ainda sem o vento, sem a água e sem perfume, algumas luzes voltaram e chamavam a atenção mesmo que de manhã. Dessa vez, quando o vento voltou, o frio não veio junto e o coração de aqueceu. Na verdade, ele se aquecera com as luzes do morro e o vento gelado em contato, cedeu ao calor. Calor esse que condensou a água e a trouxe de volta. E com tanto aconchego, volta também o sono, que mesmo com as marcas do último pesadelo, voltou mais forte. Tão mais forte que não houve jeito: "preciso deitar".
O chão confortável fez a cama parecer gelada dessa vez, mas o sono aumentava. Aos poucos às luzes do morro se borraram até o escuro chegar e trazer consigo os sonhos roubados por uma insônia que prometeu voltar logo logo. "Até breve!".
quarta-feira, 21 de setembro de 2016
terça-feira, 28 de junho de 2016
Já tentou escrever feliz?
Eu já experimentei escrever feliz,
mas sempre há tanta gente ouvindo o que o contente diz...
Eu juro que até tentei escrever feliz,
mas é mais fácil cantar, porque o canto não deixa cicatriz.
Na verdade, eu nunca quis escrever feliz,
porque gente feliz não sabe o que diz.
Solta palavra no vento e nem sabe onde ir.
Não mede o que pensa, só quer saber de sorrir.
Eu não sei se vou escrever feliz,
porque o riso se escuta de longe, lá do outro lado,
mas o soluço baixinho, é quase queto de tão amuado.
Talvez eu nunca escreva feliz,
porque felicidade está sempre em roda
enquanto a tristeza, por aqui, nunca sai de moda.
mas sempre há tanta gente ouvindo o que o contente diz...
Eu juro que até tentei escrever feliz,
mas é mais fácil cantar, porque o canto não deixa cicatriz.
Na verdade, eu nunca quis escrever feliz,
porque gente feliz não sabe o que diz.
Solta palavra no vento e nem sabe onde ir.
Não mede o que pensa, só quer saber de sorrir.
Eu não sei se vou escrever feliz,
porque o riso se escuta de longe, lá do outro lado,
mas o soluço baixinho, é quase queto de tão amuado.
Talvez eu nunca escreva feliz,
porque felicidade está sempre em roda
enquanto a tristeza, por aqui, nunca sai de moda.
sábado, 19 de março de 2016
Epitáfio do ex-a(mar)
Se há necessidade
de por o A pro mar ficar maior,
não há maior vaidade
do que querer o imenso, o infinito mor.
Se o começo é intenso
(Olhar profundo,
janela d'alma),
Dos sentimentos, nenhum consenso,
Nenhum lugar do mundo
que possa dar calma.
O meio, então, já é triste fim.
E o mar infinito não se faz tão imenso
dentro de ti e de mim.
Porque o A as vezes cresce mais do que o mar,
que as vezes sobressai o amar.
E nessa confusão sensata,
resta o frio, que aos poucos mata
o calor do começo.
E tempo diz que assim que se trata
algo que começa sem pauta, ponto ou ata.
E assim, aos poucos, eu vejo se nos esqueço.
terça-feira, 1 de setembro de 2015
No que você está pensando?

Estou pensando nesse dia que é terça e chove.
Pensei que a semana mal começara e eu já estava com dor de cabeça.
Pensei que não era nem quarta e eu já sentia o peso da quinta.
Pensei que a chuva estava fria e que terça não é dia de chuva.
Pensei se a chuva pensou na terça antes de vir.
Não, não é mesmo.
Chuva é feita para domingos com filme, coberta e cafuné, não para uma terça.
Pensei depois que chuva não tem dia.
Pensei que pensava demais e pensei em não mais pensar.
E depois de pensar em nada mais,
Pensei apenas no barulho de chuva que regava o jardim e trazia um cheiro bom de terra molhada.
Pensei na minha cidade, na minha família, na minha infância e nas chuvas que vi.
Pensei nas corridas de gota no vidro do carro, nos banhos de mar com outras chuvas e nos banhos de chuva que ainda viria a ganhar.
Pensei de novo que estava pensando demais e por fim, pensei que quem pensa demais fica só pensando e nada faz.
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
Seres de Areia Seca
Não é que eu queira desmoronar outros castelos de areia ou reconstruir o meu que o mar levou tão gentilmente. Nem é porque minha torre desmoronou no último punhado de areia molhada (sim, molhada. Apenas seca e eu não faria nem o portão de entrada)... Sinceramente? Eu nunca quis um castelo. De verdade. Mesmo, mesmo! É que tantas crianças o faziam tão alegremente que eu queria, não o castelo, mas a alegria de fazê-lo.
Sempre me perguntei o porque de estar fazendo um castelo e não um jacaré ou qualquer outra coisa que me fizesse feliz na mesma proporção. O problema nem era a criatividade, a dificuldade de responder "o que fazer". Acho que, na verdade, o problema era ter tanto trabalho para fazer algo diferente e não me fazer tão feliz quanto acreditava que o castelo fazia as crianças que brincavam na praia.
Depois que construí meu primeiro jacaré de areia, vi que fazer castelos era algo bobo. Quer dizer, se você realmente queria um castelo, era algo lindo, talvez a melhor sensação do mundo inteiro fosse vê-lo pronto e se dizer rei dele, mas se você era mais uma criança que faz castelos porque "é o que se faz na areia, afinal", eu acho bobo sim.
Hoje meu último castelo se desfez. Eu sequer me lembrava mais dele, mas vê-lo desmoronado por um qualquer que por ali passara foi estranho. Pensei em sentir o pesar do adeus que dei a esse castelo, mas não achei digno perto do pesar que senti por aquele transeunte que certamente era um ser de areia seca e nada mais. Seres de areia seca não se apegam, não se tornam parte e ficam muito pouco tempo nos sonhos independente de sua forma: castelos, jacarés, reis e princesas, nada consegue fazer os areias secas ficarem muito tempo perto e tão pouco convencê-los de que fazer parte de um sonho é a nova melhor sensação do mundo (melhor do que ver seu castelo pronto) e que nem toda melhor sensação do mundo dura pra sempre. Na verdade, acho que dura sim. Dura um pra sempre diferente, um pra sempre que existe dia sim dia não. Um pra sempre que vai da próxima lambida do mar até sua próxima maré.
Durando muito ou pouco, mesmo quando for muitos segundos ou poucos anos, eu queria que todo castelo durasse um tempo bom o bastante pra fazer lembranças boas, bom o bastante pra ser um bom castelo que tenha um tempo bom o bastante para abrigar todos os jacarés, reis, princesas e areias secas, mas que também tenha um tempo bom para conseguir crianças boas que os reguem com pequenos punhados de água salgada e risos frouxos de um dia de Sol.
quinta-feira, 28 de maio de 2015
A felicidade da gente
![]() |
| Créditos: Diário Liberdade |
A gente se reentende e eu nem sei se existe essa palavra,
Mas eu sei que a gente não acaba e que o sonho não termina quando a estrada some.
É que depois que a estrada some, a gente descobre o horizonte.
E a gente aprende de novo que a estrada nunca sumiu.
Aliás, nem mesmo a gente.
É que depois que a gente se encontra,
a gente percebe que não houve reencontro.
Não teve distância, não teve saudade.
Só teve a gente de costas um pro outro achando que era outra realidade.
É que quando a gente não vê, talvez a gente não se sente.
E toda essa gente que não sente, confunde a gente e desmente o que se entende
Que, até então, era tudo o que eu sabia da gente.
É que quando a gente não sabe da gente,
Toda aquela outra gente, que também não sabe sobre gente,
Acha que separou a gente, e com isso, fica contente.
É que essa felicidade, desse tipo de gente,
Já não contagia mais a gente.
E depois de tanto tempo, a gente se reencontra
E reentende que felicidade pra gente, é a felicidade de toda a gente.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Criptex
![]() |
| http://sabinerich.deviantart.com/art/Moleskine-sketch-2-350702193 |
Como todo amor antigo, doeu muito no começo. Quanto mais eu queria melhorar, mais dependente eu ficava. Dessa vez, "engolir o choro, 3x ao dia" era o que eu acreditava precisar, mas, para quem tem refluxo, nada fica entalado por muito tempo e era exatamente aí, que minha inexperiência e juventude berravam.
Ora, pensava eu, contar tudo para um papel é não contar para ninguém. Escrever com o único objetivo de ilustrar meus cadernos (comprados compulsivamente, claro), não era, nem deveria ser, considerado desabafo. As estantes não parecem tão sábias quanto nas fotos das bibliotecas e nem mesmo eu era a mesma pessoa do eu lírico. Aliás, brigávamos o tempo todo.
Era minha história, minha dor, minha alegria. Problema era dele se ele queria reescrever o final! Que se dane seus contos de fada e suas crônicas mal escritas. "Desculpa" - foi o que pensei - "mas minha história é rica demais pra caber em poucos versos" - dei de ombros e saí andando.
Andei tanto que cheguei em outro estado. Minha narrativa se encontrava em pleno desenvolvimento e complicações pareciam brotar do chão (certeza de que algumas vieram do submundo
). Foi então, que sem saber para onde ir (diante da máxima de que "se correr o bicho pega e se ficar o bicho come"), tentei me lembrar de onde vim.
Recolhi meus cadernos, estudei meus mapas e me encontrei. Ali, quietinha, na página 2.Uma lágrima escorreu e um sorriso ou dois escaparam. Ri de mim e do meu desespero. Andei tanto, tanto, tanto, que dei a volta ao mundo e, redondo como é, trouxe-me ao mesmo lugar. Eu, como todo viciado, tive que ir longe e ir muito à frente de mim para entender que fui gênio. Entender que estava tão a frente de meu próprio tempo que nem eu me entendia. Acreditar que versos não são e nunca serão desabafos e entender de uma vez por todas que quando a caneta quiser falar, é preciso ser humilde e deixá-la livre, pois tudo o que ela faz e guardar um pouco de si para quando você for outro.
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