terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Decreto do Amor Sustentável

A partir de hoje fica decretado
Que qualquer choro amuado
Por menor que fosse
Estaria cancelado
E que todo sorriso bobo
Será devidamente recompensado.

Decreto hoje, ainda,
Que o amor deve ser a coisa mais finda
E dispensará escritos permanentes
Se realmente for amor o que carece essa gente.

Estará liberado ligar de madrugada,
Correr até o metrô e chorar olhando o céu.
Também permitir-se-á variações de bobeira e burrada,
Sem conversão de inocente em réu.
Está decretado agora que
Quaisquer uma dessas maluquices
Que tenham como único fim um sorriso frouxo
Estarão obrigatórias,
Mas só a partir de agora.

A partir de hoje,
Faz-se obrigatório também o uso de agrado às papilas
Gustativas e sensoriais.
Qualquer recurso destinado a este termo
Será visto como bônus para os demais.

Ainda sobre este tipo de agrado,
Revisto como obrigatório neste termo em comum acordado,
Será a base sólida de um amor derretido
E, por que não, também divertido.

Sem mais concluo o decreto
E eis aqui a chance do amor mais lindo
Sustentável
E verdadeiro
Que já se ouviu proclamar por aí.


Cumpra-se.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Sonhos roubados

Não! E mais uma noite se esvai, escorrendo pelas entranhas da insonia. "Maldito pesadelo"... O chão ainda está frio e a sede mais uma vez perde para a preguiça. "Certamente não vale a empreitada de caminhar até a cozinha... Mas era tanto sangue, tanto horror... Argh!" e num pulo, estava com o copo d'água na mão e já de volta ao quarto.

A janela se abre, o vento gela mais ainda o seu peito sem calor. As luzes no morro formavam uma árvore de natal precária, mas querida. Parecida com a sua primeira árvore de natal, feita de papel e enfeites de plástico. Simples, bonita e querida.

Já não se lembrava quanto tempo nenhum calor habitara seu peito. Antes vivia apaixonada por tudo. Um olhar bastava. Quantos amores perdeu atravessando a rua... Mais do que saindo na estação certa.
"Acontece... Outro logo surgirá", mas não vinha. Não vinha o amor, a paixão não fixava bem. Tão ruim quanto perfumes baratos: frascos lindos, notas duvidosas e nenhum fixador. Nem um.

Com o tempo, já se acreditava na extinção de fixadores. Ouviu-se falar da extinção das notas de corpo, mas era besteira. Só a percepção havia perdido sua sensibilidade, acompanhando o estado bitolado do olhar. Há muito as luzes do morro perderam o encanto e as entranhas do piso de tábua corrida ficaram muito mais interessantes ou, no mínimo, demonstraram-se com mais detalhes, pois consumia-se muito mais tempo observando as tábuas do que com as luzes que só apareciam ao cair do dia.

Eles deram as mãos e subiram lentamente uma grande ladeira. Todos juntos: o copo d´água, o vento gelado, as luzes do morro, os amores das ruas, os perfumes baratos e os pisos de madeira. Todos. E ainda juntos, do alto, observaram tudo o que o Sol abraçava todos os dias. A água do copo se foi e, sem o peso necessário, o vento gelado o levou embora assim que o Sol se foi. As luzes do morro que deveriam tomar seu lugar de direito, neste dia, racionaram e o morro ficou no escuro que, por sua vez, também expulsou os perfumes baratos e deu lugar ao medo. Ficaram então as tábuas, cada vez mais nítidas.

Mas quando a noite acabou, ainda sem o vento, sem a água e sem perfume, algumas luzes voltaram e chamavam a atenção mesmo que de manhã. Dessa vez, quando o vento voltou, o frio não veio junto e o coração de aqueceu. Na verdade, ele se aquecera com as luzes do morro e o vento gelado em contato, cedeu ao calor. Calor esse que condensou a água e a trouxe de volta. E com tanto aconchego, volta também o sono, que mesmo com as marcas do último pesadelo, voltou mais forte. Tão mais forte que não houve jeito: "preciso deitar".

O chão confortável fez a cama parecer gelada dessa vez, mas o sono aumentava. Aos poucos às luzes do morro se borraram até o escuro chegar e trazer consigo os sonhos roubados por uma insônia que prometeu voltar logo logo. "Até breve!".

terça-feira, 28 de junho de 2016

Já tentou escrever feliz?

Eu já experimentei escrever feliz,
mas sempre há tanta gente ouvindo o que o contente diz...

Eu juro que até tentei escrever feliz,
mas é mais fácil cantar, porque o canto não deixa cicatriz.

Na verdade, eu nunca quis escrever feliz,
porque gente feliz não sabe o que diz.
Solta palavra no vento e nem sabe onde ir.
Não mede o que pensa, só quer saber de sorrir.


Eu não sei se vou escrever feliz,
porque o riso se escuta de longe, lá do outro lado,
mas o soluço baixinho, é quase queto de tão amuado.

Talvez eu nunca escreva feliz,
porque felicidade está sempre em roda
enquanto a tristeza, por aqui, nunca sai de moda.

sábado, 19 de março de 2016

Epitáfio do ex-a(mar)



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Se há necessidade
de por o A pro mar ficar maior,
não há maior vaidade
do que querer o imenso, o infinito mor.

Se o começo é intenso
(Olhar profundo,
janela d'alma),
Dos sentimentos, nenhum consenso, 
Nenhum lugar do mundo
que possa dar calma.

O meio, então, já é triste fim.
E o mar infinito não se faz tão imenso
dentro de ti e de mim.
Porque o A as vezes cresce mais do que o mar,
que as vezes sobressai o amar.

E nessa confusão sensata,
resta o frio, que aos poucos mata
o calor do começo.

E  tempo diz que assim que se trata
algo que começa sem pauta, ponto ou ata.
E assim, aos poucos, eu vejo se nos esqueço.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

No que você está pensando?




Estou pensando nesse dia que é terça e chove.

 Pensei que a semana mal começara e eu já estava com dor de cabeça.
Pensei que não era nem quarta e eu já sentia o peso da quinta.
Pensei que a chuva estava fria e que terça não é dia de chuva.

Pensei se a chuva pensou na terça antes de vir.
 Não,  não é mesmo.
Chuva é feita para domingos com filme, coberta e cafuné, não para uma terça.

Pensei depois que chuva não tem dia.

 Pensei que pensava demais e pensei em não mais pensar.

E depois de pensar em nada mais,
Pensei apenas no barulho de chuva que regava o jardim e trazia um cheiro bom de terra molhada.

Pensei na minha cidade, na minha família, na minha infância e nas chuvas que vi.

Pensei nas corridas de gota no vidro do carro, nos banhos de mar com outras chuvas e nos banhos de chuva que ainda viria a ganhar.

Pensei de novo que estava pensando demais e por fim, pensei que quem pensa demais fica só pensando e nada faz.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Seres de Areia Seca


          Não é que eu queira desmoronar outros castelos de areia ou reconstruir o meu que o mar levou tão gentilmente. Nem é porque minha torre desmoronou no último punhado de areia molhada (sim, molhada. Apenas seca e eu não faria nem o portão de entrada)... Sinceramente? Eu nunca quis um castelo. De verdade. Mesmo, mesmo! É que tantas crianças o faziam tão alegremente que eu queria, não o castelo, mas a alegria de fazê-lo.

           Sempre me perguntei o porque de estar fazendo um castelo e não um jacaré ou qualquer outra coisa que me fizesse feliz na mesma proporção. O problema nem era a criatividade, a dificuldade de responder "o que fazer". Acho que, na verdade, o problema era ter tanto trabalho para fazer algo diferente e não me fazer tão feliz quanto acreditava que o castelo fazia as crianças que brincavam na praia.
         
           Depois que construí meu primeiro jacaré de areia, vi que fazer castelos era algo bobo. Quer dizer, se você realmente queria um castelo, era algo lindo, talvez a melhor sensação do mundo inteiro fosse vê-lo pronto e se dizer rei dele, mas se você era mais uma criança que faz castelos porque "é o que se faz na areia, afinal", eu acho bobo sim.

        Hoje meu último castelo se desfez. Eu sequer me lembrava mais dele, mas vê-lo desmoronado por um qualquer que por ali passara foi estranho. Pensei em sentir o pesar do adeus que dei a esse castelo, mas não achei digno perto do pesar que senti por aquele transeunte que certamente era um ser de areia seca e nada mais. Seres de areia seca não se apegam, não se tornam parte e ficam muito pouco tempo nos sonhos independente de sua forma: castelos, jacarés, reis e princesas, nada consegue fazer os areias secas ficarem muito tempo perto e tão pouco convencê-los de que fazer parte de um sonho é a nova melhor sensação do mundo (melhor do que ver seu castelo pronto) e que nem toda melhor sensação do mundo dura pra sempre. Na verdade, acho que dura sim. Dura um pra sempre diferente, um pra sempre que existe dia sim dia não. Um pra sempre que vai da próxima lambida do mar até sua próxima maré.

       Durando muito ou pouco, mesmo quando for muitos segundos ou poucos anos, eu queria que todo castelo durasse um tempo bom o bastante pra fazer lembranças boas, bom o bastante pra ser um bom castelo que tenha um tempo bom o bastante para abrigar todos os jacarés, reis, princesas e areias secas, mas que também tenha um tempo bom para conseguir crianças boas que os reguem com pequenos punhados de água salgada e risos frouxos de um dia de Sol.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

A felicidade da gente

Créditos: Diário Liberdade
É que depois de tanto tempo, a gente se encontra.
A gente se reentende e eu nem sei  se existe essa palavra,
Mas eu sei que a gente não acaba e que o sonho não termina quando a estrada some.

É que depois que a estrada some, a gente descobre o horizonte.
E a gente aprende de novo que a estrada nunca sumiu.
Aliás, nem mesmo a gente.

É que depois que a gente se encontra,
a gente percebe que não houve reencontro.
Não teve distância, não teve saudade.
Só teve a gente de costas um pro outro achando que era outra realidade.

É que quando a gente não vê, talvez a gente não se sente.
E toda essa gente que não sente, confunde a gente e desmente o que  se entende
Que, até então, era tudo o que eu sabia da gente.

É que quando a gente não sabe da gente,
Toda aquela outra gente, que também não sabe sobre gente,
Acha que separou a gente, e com isso, fica contente.

É que essa felicidade, desse tipo de gente,
Já não contagia mais a gente.
E depois de tanto tempo, a gente se reencontra
E reentende que felicidade pra gente, é a felicidade de toda a gente.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Criptex

http://sabinerich.deviantart.com/art/Moleskine-sketch-2-350702193
           E foi aí que eu me perdi. Papel e caneta sempre foram sinônimo de dor e como boa ex-hipocondríaca, decidi abandoná-los a medida que me forcei a experimentar tratamentos alternativos. Ainda não sei ao certo se foram as tendinites ou os níveis maiores de endorfina, mas o fato era que eu precisava experimentar coisas novas e naquele momento, era preciso aposentar a pena, o teclado e qualquer outra coisa que me fizesse dizer mais do que eu mesma sabia.
            Como todo amor antigo, doeu muito no começo. Quanto mais eu queria melhorar, mais dependente eu ficava. Dessa vez, "engolir o choro, 3x ao dia" era o que eu acreditava precisar, mas, para quem tem refluxo, nada fica entalado por muito tempo e era exatamente aí, que minha inexperiência e juventude berravam.
            Ora, pensava eu, contar tudo para um papel é não contar para ninguém. Escrever com o único objetivo de ilustrar meus cadernos (comprados compulsivamente, claro), não era, nem deveria ser, considerado desabafo. As estantes não parecem tão sábias quanto nas fotos das bibliotecas e nem mesmo eu era a mesma pessoa do eu lírico. Aliás, brigávamos o tempo todo.
            Era minha história, minha dor, minha alegria. Problema era dele se ele queria reescrever o final! Que se dane seus contos de fada e suas crônicas mal escritas. "Desculpa" - foi o que pensei - "mas minha história é rica demais pra caber em poucos versos" - dei de ombros e saí andando.
            Andei tanto que cheguei em outro estado. Minha narrativa se encontrava em pleno desenvolvimento e complicações pareciam brotar do chão (certeza de que algumas vieram do submundo
). Foi então, que sem saber para onde ir (diante da máxima de que "se correr o bicho pega e se ficar o bicho come"), tentei me lembrar de onde vim.
            Recolhi meus cadernos, estudei meus mapas e me encontrei. Ali, quietinha, na página 2.Uma lágrima escorreu e um sorriso ou dois escaparam. Ri de mim e do meu desespero. Andei tanto, tanto, tanto, que dei a volta ao mundo e, redondo como é, trouxe-me ao mesmo lugar. Eu, como todo viciado, tive que ir longe e ir muito à frente de mim para entender que fui gênio. Entender que estava tão a frente de meu próprio tempo que nem eu me entendia. Acreditar que versos não são e nunca serão desabafos e entender de uma vez por todas que quando a caneta quiser falar, é preciso ser humilde e deixá-la livre, pois tudo o que ela faz e guardar um pouco de si para quando você for outro.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

ESCOLHA

Escolha.
Ex, colha.
Inaceitável
Abraçar só o que puder.
Inaceitável
Abraçar só o que semeado estiver.
Impossível
Esquecer o frutificável
Impossível aceitar o inaceitável.

domingo, 18 de maio de 2014

Gambiarra

Créditos: VozModels
E se o dia terminasse mais tarde?
E se a vida durasse um pouco mais?
E se, por um segundo, isso que agora arde,
Ardesse ainda mais?

E se eu não me perguntasse?
E se o caminho, por si só, mudasse?
E se as tantas estrelas mudassem sua posição,
isso comprometeria sua orientação?

E se tudo não dependesse de um só?
E se tudo que resta é apenas nó?
E se, o que deveria ser, não fosse,
faria sentido, então, o que trouxe?

E se tudo se resolvesse com rima?
E se a vida fosse uma unidade trina:
Ler, entender e mudar
Seriam, agora, o bastante para melhorar?

E se no final aparecer solução,
Entenda e mude o já feito até então
E se leia
E se admire
E se vire.

domingo, 9 de março de 2014

E agora? José?

E agora, José?

Você que já esteve no fim da festa,
É só você a solução que me resta!
Como faço para me esconder?
Como devo encarar?
Como volto a conviver?

E agora, José?

Créditos: Romalro Anete
Você que falara com o Benedito,
Com o Raimundo e com o João...
É só você em quem acredito
Haver fagulha de solução...

E agora, José?

O poema acabou,
A angustia passou
E o peito ainda não desabafou...
Embora tenha passado o horror,
Não se sabe ainda para onde levar
Tanta mágoa, medo e dor.

E agora, José?

Para você que é mera rima,
Que não é nem nunca foi solução,
É pra ti que entrego a sina
De tudo que se feriu até então.

Mundo, tão vasto é o mundo...
E se eu chamasse o Raimundo?
Ainda seria apenas rima,
Não seria uma solução..

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Oráculo

E se você negasse sua felicidade
E Se negasse a toda sensação?
E se você negasse que nega,
Faria sentido, então?

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Sonho

Quando eu acordar,
Quero, comigo, o Sol levar,
Quero vestir meu melhor sorriso
E seus brilhos espalhar...

Quando eu acordar,
Não saberei o que é ser triste
E mesmo não acreditando,
Peço então, para que acredite.

Quando eu acordar,
Talvez de tudo isso me esqueça,
Mas hoje,
deixe como está...
Deixe para acontecer só quando eu acordar.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Soneto Toscana

Não que todo sonho não valha a pena,
Nem que toda lágrima seja boa,
Mas quando a alma não é pequena,
Nenhum pranto é pranto a toa...

Não que todo sorriso seja feliz,
Nem que toda solidão seja amarga,
Mas quando a alma é diretriz,
Nenhum pensamento a retarda.

E dos pulsos, houve o fim.
Sem mais impulsos,
Simples assim.

O sentimento aos poucos vira pó
E o pouco que restará
Não será o pior.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Cirurgia

          "Daí, então, eu me dobrei, pus-me no bolso e continuei. Ah, no bolso da camisa, é claro, é mais difícil de perder... Não que eu já não estivesse perdido, mas é sempre bom saber que se está no peito. Se estou perdido? Sim, é claro! Sempre estou... [risos] Pois é, estranho né? Logo eu que sempre mostrei o caminho, logo eu que sempre desenhei o mapa, logo eu que me orientava só pelas estrelas, logo eu...
          "Aqui dentro é quente", pensei. Nunca havia estado tão perto do peito. Bem, alguns já haviam descrito como era a sensação, mas sempre duvidei. Ora, como pode ser quente e aconchegante? Se calor fosse confortável ninguém ligava ar-condicionado... Mas era. E como era! Falando assim, até é possível sentir saudade. "Não tenho tempo para isso", pensei e continuei a caminhar.
          A noite chegava e o crepúsculo nunca fora tão charmoso. Parei de novo. Que se dane o jeans de marca, eu precisava sentar e aquela pedra nunca fora tão confortável! Fiquei ali, estagnado, perdido ainda, tentando me encontrar e no breve momento que me encontrei no deleite do escurecer do céu, lá estava eu, mais uma vez, perdido, sem saber para onde caminhar...
          Olhei para o chão, lá estava a flor que tanto admirava... Esbocei um choro (forçado, admito), mas sincero, numa vã tentativa de regá-la. Vã, eu disse e de fato foi. Com o sentimento amuado, a colhi novamente (como sempre fazia) e a pus no bolso, junto a mim. Embora esmagada, suja de terra e um tanto machucada, ainda pude ver sua seiva (ainda havia um tanto da que fabricava) e, vendo que havia me esquecido de me preocupar com seu caule, o substitui tentando alimentá-la do que ela mesmo produzia.
         A aurora ameaçava chegar e consigo, meu sorriso trazia. Na medida que sua cor retornava, aos poucos (lenta e timidamente), o dever cumprido era a sensação que eu tinha e o sorriso se tornava cada vez mais LSD (sim, não tinha descrição melhor e eu sei que você entendeu).
         Vendo sua viçosidade aflorando, decidi devolve-la à terra. Antes mesmo que acordasse, já implantara novas raízes e, quando menos esperara, já se encontrava na terra de novo. Ali, sozinha, linda, viçosa e com o doce perfume hipnotizante de sempre. Eu, continuei andando. Você, foi ficando cada vez menor. Eu, ainda olhando para trás, tropecei e cai (assim a vida me forçou a olhar para frente). Levantei rápido, ainda atordoado e você já não estava mais lá...
         Continuei andando, até minha exaustão. Dias se passaram e, embora ainda no mesmo caminho, não fazia sombra de ideia para onde estaria indo. Lembrei-me então daquele crepúsculo, daquele dia que cheguei tão perto de me encontrar e, quando faltava um triz, eu encontrei você. Pensando, ainda sentado (a força do hábito não me permitia admirar o céu de pé), descobri que foi a única vez que não pensei mais no caminho e nem na direção. Entendi assim que, talvez, fosse você meu caminho e eu, tolo, te deixei por lá, segui outro rumo: desconhecido, não querido, nem um pouco amigo. Senti sua falta, meu bolso estava vazio (porque nem eu mesmo estava mais lá), o que me fez olhar para trás a sua procura.
        Não te achei. Só o que vi foi uma linda árvore (próxima de onde te deixei, segundo meus cálculos), cheia de frutos e com a mesma viçosidade. Não sei se as folhas eram tão bonitas, mas seu perfume, esse sim, o vento fez questão de trazer o doce cheiro hipnotizante. Entrei em transe. Pus-me a caminhar. Ainda não sei para onde, ainda perdido, mas caminhando. Ainda não sei onde quero chegar, mas sei que é esse cheiro o melhor para me guiar... Talvez eu te encontre, talvez eu me ache, talvez só o que eu queira seja ser suas raízes e dormir sob suas folhas esperando a próxima aurora chegar."
     

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Epitáfio

Jaz aqui
O choro abafado,
O abraço não dado
 E o sofrimento calado.

Jaz aqui
A beleza da gente,
O que nunca se sente
E uma cabeça quente.

Jaz aqui
A estrela ofertada,
A aurora esperada
E a lágrima enxugada.

O que não coube aqui
E nos espera logo ali
Foi a promessa esquecida
De uma vida bem vivida
Além dessa que se perdeu.


domingo, 10 de novembro de 2013

Rosa dos Ventos II

E quantas vezes
Levei-me pelo mar?
Por tantas vezes
Que me perdi num breve olhar...

Quantas vezes
Acalmei-me pelo soar
Dos tantos ventos
Que vieram, ao ouvido, soprar...

Quantas vezes
Foi o verde, no mais tardar,
Que curou-me do tanto chorar...

E, pelas lágrimas,
Quantas estrelas deixei de contar...
Quantos sonhos deixei por lá...
E perguntei aos céus:
Quando meu sorriso voltará?

domingo, 22 de setembro de 2013

mimese

Não queria voltar atrás...
Não é lá que eu quero viver.
Se no passado não estou mais,
Por quê, então, reviver?

Não queria ter tantas marcas,
Tão menos tanto pavor...
Não queria abandonar minhas cartas
Fossem elas de medo, alegria ou amor.

Não queria que esse sonho esvaísse,
Queria, uma vez, isso viver.
Por isso, o deixarei nesse verso
Para, sem culpa, esquecer.

E assim, guardado em poesia,
Não virou prosa mais uma fantasia.
Perguntarei ao João de Barro como fazer,
"Até quando serei igual a você?".

domingo, 8 de setembro de 2013

Ex-monofobia


Créditos: .Commaranata

Se antes te odiava,
Hoje te amo
E se antes te evitava,
Hoje te chamo.

Aprendi a conviver com você,
Aprendi muito com esse conviver,
Aprendi além do que imaginava ver,
Entendi que não há resistência ante vossa mercê.

Se ontem, te desprezei
Hoje te chamo novamente
Pois só hoje sei
Que só você tenho proximamente.

Não importa o que digam,
Apesar de tudo, vou te defender.
Porque as noites com você consolidam
A amizade que tudo isso fez nascer.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Nostalgia

Autor desconhecido
A chuva fez subir o cheiro de terra molhada.
Definitivamente, desisto das borboletas.
Não por fracasso ou desilusão,
Mas por amar tão mais as flores
Jamais haverá compreensão
Do porque de tantas dores
Causadas por bicho tão esquisito
E mesmo assim considerado bonito.

Seu corpo não tem forma
E, no entanto, plana.
E, se dizem que tens coração aberto,
Como podem dizer que ama?
Ou, talvez, seja isto que a torna
Tão especial,
De esplendida forma,
De um jeito sem igual.

Admiro sua coragem de não considerar fraqueza.
Seu corpo não permite e mesmo assim você voa.
Admiro ainda, sua audácia de enfrentar a natureza
Embarcando de alma em qualquer brisa à toa.

E, assim como esse poema,
Já não é mais lagartinha,
Superaste a maior dor, sem qualquer problema:
Hoje é rosa, é borboleta, é dilema.

E se engana quem pensa ser confusão.
A dúvida é linda,
De tudo, é a coisa mais finda
que pode ser aceita até então.